quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Carta de um bom bêbado suicida

Mais uma escrita antiga. Na época de ainda estar com a cabeça cheia de estudar literatura, me veio um "sopro de inspiração" do além. Foi uma espécie de "modernismo" mal feito. Logo de partida é bom dizer que quase tudo é fictício nesse texto. Não estava como o tal escritor. O final não faz sentido aqui. Em uma folha de caderno, demonstrando que o escritor estava bêbado, falou que havia feito uma nova métrica. Em vez de ser uma métrica frasal, mediu o tamanho da folha e, quando terminava de escrever, a media havia mudado... Até conseguir parar.
Prometi não explicar mais que isso para não perder o "prazer". Tiradas as teias de aranha:

                                       Carta de um bom bêbado suicida


        Aviso loge de partida que não quero que sintam minha falta. É estranho e, talvez difícil... sentar na mesma cama, na mesma posição de outrora, quando escrevia cartas apaixonadas. O Tempo passou e o meu interior mudou. Diria que talvez até o exterior. O bêbado já não é o mesmo. Amargura, vitórias, enfim, experiências me fizeram mudar. Perdas com quais aprendi só depois. Amadureci? Não diria que tanto diante de uma caneta, um caderno usado – pouco para estudos – e um rum barato sem acompanhamento. Se me tornei uma pessoa boa? Também não saberia dizer... há quarenta minutos atrás, meio sóbrio, tentava ensinar lições de moral a um amigo. Tentava ensiná-lo como superar o lado ruim de amar. Dizia que ele não deveria demonstrar fraqueza, que não deveria se entregar ao primeiro cigarro que aparecesse, por mais que fosse dos bons. Dizia que não devia se entregar às drogas e à bebida. Nós que nos perdemos em tais devaneios, ouvimos de quem está de fora: “Isso não te levará a lugar nenhum. Tudo que acontece é doce e pura ilusão”. Pensamos que eles não sabem... e realmente é o que prevalece em nossa cabeça. Entretanto, o que eles dizem que é a mais pura verdade. Diferente da doce ilusão. Amarga.
         Devemos seguir o certo com força total, mesmo que seja pouca. Se estivermos tão cansados depois de tal esforço, mas vendo que precisamos de mais, as lágrimas encherem os olhos, significa que estamos no caminho certo. Se seguirmos mesmo com os olhos molhados, tornaremos palpável o objetivo perseguido.
         Sabe, percebi – falando ao meu amigo – que por mais que às vezes tenha me sentido frio, não deixei de me preocupar mais com os outros que comigo. Ontem pensava em me tornar engenheiro para dar uma vida boa e moradia principalmente a minha família. Logo depois, a todo mundo – ou a todo o mundo se assim melhor for. Hoje, me vejo quase médico. O que me move é a vontade de fazer bem a quem precisa. Vontade de salvar uma vida e ser agradecido por isso. Fama? Não... apenas ser reconhecido por estar fazendo o bem, e de bom gosto.
         Diante de tantos fatos, e ao lembrar o quão cético sou, constatei que minha religão é a bondade, que o que espero é apenas felicidade e, que a minha recompensa desejada se resume a um sorriso. Puro.
         Termino tal sermão e, como disse, quarenta minutos depois, estou aqui com o tal rum e a tal criatividade que será perdida com a ressaca. Me pergunto se sou realmente a pessoa boa que pareci. Pergunto-me se sou assim ou sou apenas um falso-moralista. Bom, não estou tão bêbado a ponto de esperar uma resposta do além. Apenas digo que é complicado. Só dói não ter um chão ou uma parede para se encostar.
          Já é manhã. Nem vi o sol nascer. Pensava que ia ser apenas outra manhã com o céu negro. Chuvoso. 
             Para fechar com “chave de ouro”, digo que formei uma nova métrica. Chamarei de métrica dos “quarenta e três centímetros”. Ops, agora, quarenta e quatro. Enfim, não ligue... não estou bem. Quarenta e cinco.

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